O problema espírita da existência de Deus

Os espíritas e ainda mais os "espíritas" acreditam na existência de Deus. Não conseguem ver como absurda a ideia de que um universo infinito e em expansão está sob o controle de um homem ou um humanoide que só vive escondido, sabe-se lá por que motivo. Não levam a sério a utilização do pronome "que" na pergunta feita a Kardec. Para uma humanidade imatura, é mais do que confortável acreditar que temos um tutor cuidando de nós.

O Espiritismo original definiu Deus como "inteligência suprema e causa primária sobre todas as coisas". Esta definição não garante que se trata de uma divindade ou de um homem, ou espírito ou coisa parecida. Pode haver um quê de ateísmo nesta definição, já que os termos "inteligência" e "causa" permitem anular o conceito do Deus antropomorfizado das religiões. Deus pode por exemplo, ser na verdade um conjunto de leis da ciência. Que tal substituir Deus por Ciência?

Mas aí anularia o mito da existência de um tutor da humanidade. Religiosos se sentiriam carentes em perceber que não existe uma espécie de "babá divina" a proteger e cuidar de seus interesses. O "Espiritismo" brasileiro preferiu tratar a definição dada pelos espíritos a Kardec como "metáfora" e retomou o Deus antropomorfizado, só que em forma de espírito. Mesmo sem dar corpo a Deus, não deixa de ser uma antropomorfização, já que Deus continua agindo como ser humano.

A ideia do "homem criado a semelhança de Deus" favorece essa antropomorfização. Como na tese do ovo e da galinha, admitir que o homem é parecido com Deus é o mesmo que imaginar que Deus é parecido com nós. E bingo!: a antropomorfização está pronta!

O problema piora quando a definição dada pelos "espíritas" brasileiros, importada diretamente do Catolicismo inserido na versão brasileira graças aos dissidentes católicos que fundaram a FEB e a Chico Xavier que nunca deixou de seguir a igreja dos padres, é consagrada. 

Instintivamente temos a necessidade de ter um tutor, alguém que cuide de nossos interesses e que mande no universo. Esse instinto é que faz nascer a religiosidade. Para quem defende a fé, acredita que seja u sinal de avanço humano quando na verdade é o contrário. Fé é instinto e uma pesquisa recente mostra que macacos (que ironia!) demonstraram algo que se parece com um ritual religioso, o que abre a possibilidade de animais serem capazes de ter fé religiosa.

Há quem defenda que tudo no mundo acontece por mãos humanas. Falam em espíritos controlando o nascimento, os fenômenos da natureza e até mesmo os fatos que acontecem em nosso cotidiano. Falam em livre arbítrio, mas cometem a contradição de que nada foge da decisão divina.

Aliás, se existe livre-arbítrio, para que serve Deus? Um enfeite? Um sentinela a ficar parado ao nosso dispor? E se devemos obedecer a Deus, ele deve atender a nossa vontade ou nós que devemos atender a vontade dele? Como vê, aceitar a existência de Deus é aceitar a contradição e recusar a lógica.

E será que ser divino com características humanas como Deus é necessário para que se haja mundo espiritual? A natureza não  poderia ser auto-controlável? 

Há muitos problemas causados pela crença em divindades. Enquanto não resolvermos isso a noção de vida espiritual continuará sendo risível por ser patente exclusiva de crenças religiosas, cada vez mais afundadas na teimosia da fé cega. Cada vez mais irracionais, as crenças se embaralham na hora de tentar explicar o que acontece conosco quando os corpos deixam de funcionar. E não será a certeza da existência de um tutor divino que poderá explicar isso.

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