Os espíritos não quiseram revelar tudo

O grande problema dos espíritas, sejam de qualquer tipo, é que todos se esquecem que vivemos em um planeta muito atrasado. Temos a dificuldade de entender certas coisas justamente por estamos na infância da evolução espiritual. Como crianças birrentas, teimamos e pensamos em saber tudo, confiando na (impossível) perfeição daqueles que cuidam de nós.

Os espíritos da revelação não são de evolução máxima. Vários já encarnaram na Terra, o que confirma a sua natureza ainda inferior. Além de não saberem tudo, esses espíritos pelo menos tinham a sensatez de conhecer a nossa inferioridade e evitaram entrar em polêmicas que pudessem desviar os focos da revelação. Gente, o Espiritismo foi revelado no século XIX! Querem que eles tivessem pensado como seculos adiante? Ainda mais que estamos ainda bem atrasados em pleno século XXI?

Por isso que a ideia de religiosidade ainda foi mantida nos livros da codificação, embora discretamente contestada. O foco mesmo era mostrar que existe vida naquilo que vai além da matéria. Mas a existência de seres bisonhos não é necessária para que se exista um mundo não material. É igrejismo achar que precisa, como se nós nos transformássemos em divindades após a morte.

Talvez esse pensamento dos brasileiros tenha muito a ver com o nosso cacoete de achar que todo mundo vira santo quando morre, exceto bandidos e políticos. Pensar que o mundo espiritual é uma enorme igreja parece bem cômodo para mentes indispostas a raciocinar mais.

Esse medo do ateísmo e do laicismo tão arraigado em nossa sociedade reforça esse pensamento tolo de que somos controlados por um gigante que vive escondido e que damos o nome de "Deus" e seus capangas, que chamamos de santos, "espíritos de luz", anjos, duendes, gnomos... o que for.

Preferimos sempre levar para o lado da religiosidade se esquecendo com frequência de que o mundo espiritual precisa de uma ciência para ser estudada. Se Kardec falou em religiosidade, porque ele preferiu respeitar o contexto da época. Romper com a religiosidade iria desviar o foco das revelações, provocando muita polêmica em uma época que a igreja ainda era forte. E essas polêmicas poderiam atrapalhar o estudo sobre a vida espiritual.

Mas os espíritas igrejistas (seja pró-FEB, seja anti-FEB) entenderam que as obras da codificação são sim, tentativas e criar uma seita e que Kardec é sim um sacerdote para eles. Como se as obras da codificação só tivessem questões fechadas, sem lembrar que ciências são sempre abertas e que Kardec, do contrário que pensam, quis abrir o diálogo e não fechá-lo. As obras da codificação são para iniciar estudos e não encerrar e ficar tudo por isso mesmo. 

Kardec havia deixado claro que sua obra era aberta, como toda ciência deveria ser. E aí vem uma turma e achar que o Espiritismo terminou nele. Claro que não vamos aceitar as bobagens do "Espiritismo" chiquista, dominante no Brasil, vendidas (sim, vendidas) como se fossem a complementação doutrinária. Até porque os chiquistas são os grandes responsáveis por perpetuar o caráter religioso dado ao Espiritismo e que os não-chiquistas aceitam sem murmurar. Mas vamos analisar Kardec, ao invés de cultuá-lo como se ele fosse um aiatolá.

Há muito o que aprendermos sobre a doutrina e devemos reconhecer duas coisas importantes:
- Os espíritos da codificação não tem evolução máxima. São também espíritos em aprendizado, mas com mais honestidade e um pouco mais de conhecimento do que nós.
- Os espíritos da codificação não quiseram revelar tudo. Como Jesus em seu tempo, entenderam que não estávamos preparados para certas questões.

Aprendamos todos nós a questionar. Aceitar cegamente tudo nos faz teimosos, intolerantes e burros. Quem contesta aprende porque verifica, analisa, confronta. E por isso que as ciências são abertas, como o Espiritismo deveria ser aberto. O tempo passa e criamos condições para que novas revelações sejam feitas. Basta parar e ouvir, ao invés de teimar numa crendice infantil que fecha nossas mentes.

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