Precisamos de seres humanos controlando o mundo espiritual?

Os espíritas que pretendem combater as deturpações da FEB não percebem, mas cometem o mesmo erro. Além de transformar a ciência de Kardec numa doutrina fechada, exata e sem possibilidade de revisão, constroem, de forma diferente dos chiquistas, um mundo espiritual que pudesse ter referências na materialidade terrestre.

Os que se revoltam contra as sugestões de um ateísmo espírita, certamente esperam que seres com características humanas administrem o universo e o mundo espiritual. É uma má compreensão doutrinária que acaba por não romper totalmente com o igrejismo supostamente combatido pelos que pretendem ser os verdadeiros espíritas.

Além de pouco se referirem a outros estados da matéria ainda desconhecidos por nós, o que ao meu ver pode trazer a noção de mundos falsamente espirituais, na verdade formados por outros estados de matéria menos densos e ainda desconhecidos da humanidade terrestre, preferem os espíritas acreditar que nada acontece sem a interferência de pessoas, mesmo na forma espiritual. 

A hipótese de um universo auto-controlável soa estranha para eles, pois não existe algo na face da Terra que possa servir de referência para que eles possam admitir a possibilidade disto. Para quase todos, exceto para os ateus, se algo acontece é porque partiu da iniciativa de algum ser humano. mesmo os fenômenos da natureza, controlados por um tirano chamado "Deus". Não seria mais coerente considerar os fenômenos naturais como uma sucessão de fatos que acontecem por si só?

Ah, mas vão dizer: "tá na codificação que as coisas são controladas por espíritos". E se isso for uma metáfora? E se para desviar o foco, Kardec - como fez Jesus no tempo dele - não quisesse revelar tudo? A questão da existência ou não de Deus e a responsabilidade pelo controle do universo poderiam causar um escândalo em pleno século XIX, o que poderia impedir a compreensão da realidade espiritual, verdadeira meta do codificador. Creio que Kardec preferiu deixar outras questões para que fossem reveladas mais tardiamente por outros estudiosos.

Não fechemos a obra kardeciana porque o próprio Kardec não queria fechá-la. Usemos a codificação como base, como um começo dos estudos e na como o fim deles. Devemos pegar as ideias kardecianas e destrinchá-las ao invés de tentar criar uma nova seita com ideias absolutamente fechadas. Até porque se aparecer uma ciência fechada que alega ter todas as respostas para tudo, pode pular fora, é fria, é falsa. Ciência séria sempre está aberta para novas descobertas. E ciência de Kardec não fugia a essa regra.

E para nós é muito estranho que a pequenez humana seja responsável pelo andamento do universo. Mesmo que admitamos a existência de Deus, Ele deve ter sido bem medíocre para criar regras tão falhas que precisam ser conduzidas por pessoas, como se o universo fosse movido a corda. Pessoas como o próprio Deus, a nos mover como marionetes.

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